* LOUCO NO OCO SEM BEIRAS: O SUJEITO DEVASTADO *
 
Fabiano Calixto
 
    Louco no oco sem beiras - Anatomia da depressão (Ateliê Editorial, 2001) de Frederico Barbosa é um livro que aponta, com invenção e requinte, para questões a serem respondidas pela sensibilidade do mundo contemporâneo, em todos os seus sentidos. Um mundo pós-guerra fria, onde os vencedores cantam e dançam à sala de estar do primeiro mundo, desfrutando do seu diamante à custa de um resto que padece de sua pobre e infeliz existência. O mundo do terrorismo high-tech e do neoliberalismo canibal. Assim, neste solo, com aguçada visão de seu tempo e com total domínio de sua arte, Frederico brinda o público com este seu quarto trabalho, questionando toda essa estrutura, mostrando um sentimento que cada vez mais parece geral: a depressão perante a realidade.
    O livro traz em seu corpo um poema longo e extremamente musical, que se derrama como um líquido espesso, inundando tudo para desembocar no oceano sensitivo do leitor. O dia-a-dia, para o sujeito, dói. E dói não apenas por parecer um eterno déjà vu, mas também porque cada repetição sangra, amplificando, assim, a dor. A dor, agora não mais fingida, como no poema de Pessoa, mas sentida deveras.
    O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, em seu magnífico texto O Desespero Humano, assim escreveu: “... o desespero é portanto a ‘doença mortal’, esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a morte; e vivê-la num só instante, é vivê-la eternamente.” Podemos trazer esta idéia ao contexto deste Louco no oco sem beiras. O sujeito está nesse eternamente morrer, ou seja, vivendo a morte a cada segundo do dia. Não a morte, falência dos sinais vitais, mas a outra morte, falência do ânimo articulativo. O desespero de despertar (acordar, portanto viver) enclausura o indivíduo no pesadelo total, deixando-o sem saber onde se acabou o sono e onde se inicia a realidade, onde está a caldeira do inferno ou a praia do paraíso, deixa-o, enfim, na supremacia misteriosa da confusão, do horror, iludido pelo desespertador – síntese poderosa do neologismo com que Frederico fecha o primeiro fragmento.      No segundo fragmento, a agonizante sinfonia do terceiro verso – “luz sem voz sem vis sem vez sem mais” – conjuga o ser como um ruído, uma canção à procura de nitidez, mas só há o barulho sórdido, a antimúsica, a metáfora mesma do vazio humano. O sujeito, como que feito de chumbo, “desfocado/ fora de faro/ formigando em/ câmera lenta”, apenas obedece aos movimentos mecânicos da responsabilidade que o pertence, mas não o atrai. Ele, máquina orgânica, apenas vai, danado, só, sonado, zumbi moderno e moderado, ao seu tortuoso destino, seja este qual for.
    Nos versos “perdi a chave/ não paguei// perdi os óculos/ não fechei// perdi a carteira/ não olhei// surtei”, o sujeito vai perdendo a noção, a materialidade do pensamento, já não encaixa as peças desse quebra-cabeça existencial, desde os mínimos e mecânicos desdobramentos quotidianos. A chave não paga? Os óculos não fechados? A carteira não olhada? Sim, estas inversões são amostras do distúrbio humano, o isso-não-é-aquilo ou vice-versa disso-e-daquilo. E o que isso tudo importa ao cidadão preso em seu próprio crânio, em sua masmorra interna? Nada. O que há é a mecanicidade dos movimentos, passados como se percebidos lucidamente, mas a lucidez é passageira neste trem de louco que é a vida.
     “os sustos/ dos pequenos surtos o// soco na parede o/ chute na porta o/ punho na mesa o// ódio do sólido o/ suor da pancada o/ peso da barra o// que é pior/ a vergonha o/ espetáculo o/ louco show do horror”, esta peça, violenta e bela, mais uma vez – como no fragmento inicial do livro – desloca o artigo definido tirando a nitidez dos versos, pontuando o estranhamento da leitura e potencializando a raiva e a vergonha do sujeito em frente a tal situação, jogando-o numa espécie de labirinto definitivo, fechado, sem saída. Segue-se o poema, cada vez mais enfático, cada vez mais estupefato, lançando mão, por vezes, de uma certa ironia: “tudo quebra/ carro vaso tv// as coisas caem/ sem o saber// só eu me quebro/ contra a parede/ por querer”. Mais à frente, onde o bonde da esperança passa longe, o desespero vai chegando ao limite, chega a causar o vômito: “sem um puto/ e ainda puto com tanto/ poeta prosa/ escuto do povo/ um poema joyce rosa:/ ‘pobrema é coisa de pobre seu moço’// e vomitei meu almoço”; o sujeito, sem dinheiro, numa situação nada agradável portanto, enjoado, vomita seu almoço, seu dia, e assim destitui-se de energia para continuar seus passos, sua repetição de atos – note-se a grande pepita lingüística garimpada à fala popular, a palavra “pobre” dentro de “pobrema”, como se o “pobrema” fosse uma espécie de patologia própria do “pobre”.
    “e se o dente doer/ esqueço// sem dinheiro sem concerto/ nervo exposto desespero// esqueço”, sim, no palácio demolido de sua precariedade, o eu só tem, como recurso respiratório, de alívio, o esquecimento, e este pretende apagar, mesmo que de modo efêmero, o suplício para dar espaço à ira do eu, contra quem, alienado ou ingênuo, não sente dor (ou finge não sentir): “panaca/ não entende minha raiva// tem tudo/ e vence/ e vem se gabar/ na minha cara// não lhe dói o dente/ nada é sem remédio/ não ficou sem um puto/ não tropeça por aí/ de sono e tédio// não entende/ é esperto// panaca”.
    O poema vai se arrastando, sufocando, entre paredes externas e internas, o sujeito deprimido, sua raiva (nunca gratuita e sim questionadora) contra o mundo e contra si mesmo, dando outra idéia à idéia de solidão: estar sozinho numa multidão, não pela treva, suposta, que se fecha em si, mas pela claridade que maximiza tudo, ou seja, o poeta aqui mantém os olhos bem abertos e a mente ligada para apreender as sensações de sua realidade e transformá-la nesta poesia honesta e forte.
    Este é um livro questionador, onde o poeta mostra todo o poder de fogo de sua linguagem, todo seu pensamento crítico sobre o mundo em que vive e a poesia aqui impressa atua no campo contrário da poesia bem rimadinha, penteadinha, perfumadinha, lambidinha (como o grande escritor Lima Barreto definiu, certa vez, a poesia do país de Bruzundanga – metáfora do Brasil) que se faz pelos gabinetes e academias por aí afora. Enfim, Louco no oco sem beiras - Anatomia da depressão coloca Frederico Barbosa entre os mais importantes e mais instigantes nomes da poesia brasileira atual.
 


Fabiano Calixto
Poeta, autor de “Algum” (ed. do autor, 1998), “Fábrica” (Alpharrabio Edições, 2000) e, com Kleber Mantovani e Tarso de Melo, “Um mundo só para cada par” (Alpharrabio Edições, 2001). Prepara atualmente traduções do poeta dominicano León Félix Batista e do compositor norte-americano Bob Dylan.

 Resenha publicada no  Suplemento Literário de Minas Gerais,  Setembro de  2002.
 

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