O terceiro livro de poemas de Frederico Barbosa traz um título pleno
de sugestões. Com ele, define-se o sujeito poético (''louco''),
seu lugar (''no oco'') e a situação de ambos (''sem beiras''),
numa síntese valorizada pelo jogo sonoro que reforça o caráter
excêntrico do que se apresenta. O subtítulo - Anatomia da
depressão - agrega uma carga expressiva que remete a um campo vagamente
científico, com o termo ''anatomia'' a prometer uma análise
meticulosa da ''depressão''. Assim, parece haver não só
uma dupla intitulação, mas uma dupla intenção:
simultaneamente a ''loucura'' e sua dissecação pela razão.
A imagem-título põe-nos
diante de um poeta que se ''finge'' (Fernando Pessoa) ''louco no oco sem
beiras'' e cria em nós a expectativa de uma poesia a se mover absurdamente
no vazio, de uma linguagem descentrada, delirante, a arder convulsivamente,
longe das margens de segurança dos sistemas mentais, científicos.
Estaríamos próximos de um universo poético delirante
e ''sem beiras''.
Mas, ao contrário, a informação do subtítulo
sobrepõe-se. O conhecimento freia a instabilidade, a centramento
impede a deriva. Deparamo-nos com poemas infinitamente distantes do espasmo,
do estremecimento. O verso curto, os cortes e os encaixes sintáticos,
tudo se articula numa demonstração de inequívoca racionalidade.
Mesmo quando vêm à cena a perturbação e o desequilíbrio,
nada irrompe violentamente. O ''surto'', por exemplo, surge em versos cuja
desarticulação não chega a perturbar a brandura da
contenção informativa: ''perdi a chave/não paguei//
perdi os óculos/não fechei//perdi a carteira/não olhei//surtei''.
Controle - Em todo o livro, a instabilidade é comedida, controlada.
O poeta distancia-se da loucura, mostrando-se, antes, como aquele que organiza,
ordena, muito embora os poemas ponham em cena um sujeito que fala de sua
adinamia, de seu abatimento ou de seu automatismo cotidiano, enfim, de
sua depressão. No nível da construção, tal
distúrbio aparece nas dissonâncias, nas assonâncias,
nos jogos de som e sentido e, sobretudo, nas elipses e nos cortes que semelham
não apenas o cansaço, mas também algo da ordem da
afasia.
Redução - Mas a economia excessivamente redutora e
o apego a certa dicção concretista impedem um estilhaçamento
mais contundente, possível mesmo numa ordem construtiva-desconstrutora
como na estética cubista. Penso, por exemplo, em certos poemas em
que João Cabral de Melo Neto analisa objetos e seres em seus diversos
''ângulos'', o que, simultaneamente, aumenta a compreensão
das formas e as deforma, como em muitas telas de Picasso.
O vocabulário prosaico, antilírico, em certa medida empresta
aos poemas de Frederico Barbosa energia, pulsação, com o
que se evita o seu esfriamento total. Nesta linhagem despoetizante, não
é difícil perceber, ainda, certa proximidade com a poesia
concreta. Poder-se-ia argumentar que falta a Frederico Barbosa a ousadia
plástica e lingüística de um Augusto ou de um Haroldo
de Campos dos melhores tempos do concretismo. Mas tal inventividade não
parece fazer parte do projeto do poeta de Louco no oco sem beiras, claramente
mais inclinado a injetar conteúdos sociais, existenciais, psicologia
e pathos ao jogo construtivo.
Desejoso de fazer com que a estética construtiva apresente, simultaneamente,
uma linguagem atravessada pelos ''acontecimentos'', vistos sempre com crítica
e ironia, e marcada por um vocabular quase da ordem da poesia marginal
dos anos 70. Tal empreendimento de poético pode dar excelentes resultados.
Neste livro, a pesquisa mostra-se ainda em andamento.
Resenha publicada no Caderno
Idéias - Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, sábado,
15 de dezembro de 2001
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