Resenha publicada no Jornal A UNIÃO - João Pessoa PB (08/12/2001)
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Um épico da depressão

     Sem exageros, com “Louco no oco sem beiras – Anatomia da Depressão” (Ateliê Editorial, 2001), o pernambucano Frederico Barbosa insere definitivamente seu nome entre os melhores da poesia brasileira em atividade hoje. Depois de passear com desenvoltura pelos diversos campos da poesia moderna em seus livros anteriores (“Rarefato”, “Nada Feito Nada” e “Contracorrente”), inclusive a vanguarda concretista, Frederico, que considera Augusto de Campos nosso maior poeta vivo, retorna com uma obra mais enxuta e concisa, sem grandes ousadias estéticas mas com muita densidade lírica e temática.

     Da capa aos poemas, tudo está em perfeita sintonia. Agora, Frederico Barbosa lança um livro com capa discreta, como a antecipar o estado de espírito que vai se refletir nos versos de “Louco no oco sem beiras”. Poderia ser, o livro, dedicado a Lord Byron. Há muito do poeta inglês em suas páginas. Um quê de melancolia, de nonsense e desprezo até mesmo ao próprio desprezo do status quo vigente. Não por acaso, o poema que abre o livro cita o diabo azul e branco, talvez numa alusão ao “diabo do byron”, que vai aparecer mais à frente, lembrando dos poetas malditos para falar do século “que se abre em terror”.

     Há outros poetas e escritores presentes nos versos de Frederico Barbosa, alguns de forma explícita, outros com mais sutileza, outros, ainda, talvez apenas na imaginação dos leitores. Por exemplo, ao ler, na página 35, “(aquele menino tão bonzinho quietinho quietinho”, impossível não lembrar de outro Frederico (García Lorca, o maior de todos), quando este dizia mais ou menos assim num poema: “quero chorar como choram os meninos do último banco”. Não poderiam faltar referências a João Cabral de Melo Neto, claro. Daí porque o poeta, na página 37, vai perder o seu sol do Nordeste “por esse ressentimento”, num exílio em sono lento. Camus surge de forma mais explícita, sugerindo piadas sem graça: “se não há nada/ além do nada”. Alguma coisa de Kafka? Por que não? Ora, o poeta também se torna um monstro voador em seus melancólicos devaneios. Até a barata surge de forma concreta mais adiante.

     Independente das influências ou referências citadas ao longo da obra, o que encanta em Frederico Barbosa neste seu novo livro é a simplicidade para se achar poesia na depressão. O professor e poeta Amador Ribeiro Neto, no prefácio à obra, ressalta que nós, brasileiros, somos um povo marcado pela melancolia, citando tese de Paulo Prado. Para além das teorias sociológicas e psicanalísticas, Amador explica didaticamente as razões do título do livro: Louco: sem o domínio da razão; no oco: no mais pleno vazio: sem beiras: sem limites. “Enfim, um Sujeito que se perde e perde seu lugar no mundo”. E conclui enfático: “é um livro de poesia melancólica”.

     Diria mais. É um livro que vai desnudando lentamente nossa agonia diária diante das intempéries da vida. A primeira parte – O Peso – é um poema só dividido em vários fragmentos, num épico ao nosso estado depressivo de todos os dias. Não sem razão, que o poema começa com o ato de acordar. Como diz Amador, o poeta dá um sentido novo para o objeto despertador. É este objeto que desperta a dor do eu-lírico para o novo dia. Ludicamente, só no final, com o poema invertido, é que está a explicação para o leitor mais distraído: “o grave/ o acordar é o/ despertador”.

     A partir do segundo fragmento poético, começa a lenta agonia do poeta. Ainda “desfocado/ fora de faro/ formigando em/ câmera lenta// sem coragem” para sair (ou cair) da cama. No jogo fonético, reconhece-se em coma, como quem se consome. Só? Depois de acordar, a mente continua lenta, pedindo cama. Mas o relógio insiste na vida que se nega. Lembra “o atraso o atraso o”. Neste melancólico despertar, ainda rondam fantasmas nos fantasmas poéticos. Razão para a vida? Não, “talvez razão na insônia/ talvez insânia”. Talvez razão nas lembranças, evocando Casimiro de Abreu para falar da aurora que já ardia aos oito anos. Ah, infância! Querida ou “que/ri/da//vida”, como engana o poema? Infância doída que lembra uma canção de Caetano Veloso. Como Cabral, a negação da crença para poder acreditar no inacreditável. Cabe, em seguida, uma dose de lirismo depressivo, pois o que espanta o poeta não é a morte: “é ouvi-la tão aguda/ que por sorte não se escuta”. Poesia ou geometria, nada o comove.

     Nem mesmo quando sua em bicas dando aulas em pânico, como se fizesse mímicas no escuro. O professor também está só, porque os alunos só querem a brisa. Tudo quebra, inclusive o poeta contra a parede. Tornando-se mais radical com o beletrismo inconsistente de nossas letras hoje: “sem um puto/ e ainda puto com tanto/ poeta prosa/ escuto do povo/ um poema joyce rosa: “pobrema é coisa de pobre seu moço”// e vomitei meu almoço”. Agora são os panacas que não entendem sua raiva numa sutil lembrança (para este colunista) de um poema de Pessoa que falava de seu aniversário, onde todos são perfeitos e só ele tinha defeitos, como o dente que dói e o tropeço de Frederico Barbosa. À medida que o poema avança em páginas, mais esse estado de cansaço radical do poeta (já antecipado em “Poesia e Porrada”, de Contracorrente) se acentua. Explode em erros em seu descontrole emocional. Perde o tempo no “banheiro internet”. Ao som da TV, “a vida pelo ralo”. Até voltar para o início. Retomar o sono poético e o sonho lírico.

     A segunda parte do livro – O P.S. – é apenas um arremate. Para provar que “em terra de profetas/ quem se cala/ é o poeta”. Para ironizar que “entre a expressão/ (banal)/ e a invenção/ (genial)// fico com a impressão”. Se inventa no leitor a expressão do seu horror, é porque Frederico Barbosa se afirma como um límpido estuário da poesia moderna (sem ser moderninha) de qualidade no Brasil de hoje. Parafraseando o final do livro, imprima-se essa verdade aos quatros ventos poéticos. Só assim estaremos salvos de nossa depressão literária.



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