Nós, brasileiros, somos um povo marcado pela melancolia, segundo
a célebre tese de Paulo Prado em Retrato do Brasil: Ensaio sobre
a Tristeza Brasileira (1928). Sendo assim, os carnavais e as multicarnavalizações
que pipocam pelo país afora, em várias áreas, de fevereiro
a janeiro do ano seguinte, são a negação freudiana
que confirma a triste conclusão do respeitado ensaísta.
Sou daqueles para quem a abordagem da literatura à luz de psicologia,
mesmo da conceituada psicanálise - tão em moda, a ponto de
converter-se em área de estudos literários -pouco ou nada
esclarece acerca da especificidade do objeto artístico. Em todo
caso, nestes tempos de multiculturalismos e de tudo muito politicamente
correto, não vou ficar chutando cachorro natimorto. Mesmo quando
consagrado. As antropologias, as sociologias, as filosofias, as psicologias,
as historicidades, e uma série de -ismos e -ias e -ades estão
todos presentes na literatura. É certo. Mais que isto: é
inegável, de tão evidentes. Mas insisto: o que faz a especificidade
do objeto literário não é nenhum nem a somatória
destes componentes. A literatura está mais além: está
no trabalho com a linguagem carregada de sentido a mais não poder
(Pound) ou, se se preferir, na literariedade propriamente dita (Jakobson,
dentre vários semioticistas russos).
Louco no Oco sem Beiras – Anatomia da Depressão é
um livro de poesia melancólica. O objeto do Sujeito Lírico
está perdido - irreparavelmente perdido - desde o título:
louco = sem o domínio da razão; no oco = no
mais pleno vazio; sem beiras = sem limites. Enfim: um Sujeito que
se perde e perde seu lugar no mundo. Perdido, não vê como
atribuir sentidos a si, às coisas, ao espaço, ao tempo.
Desprovido de projetos, sem ânimo para vivenciar o presente, espraia-se
em afrontas, desaforos, agressões, irritabilidades, impaciências,
impropérios.
A perda de sentidos leva este Sujeito a escrever. A escritura enquanto
prática terapêutica de uma possível superação
da melancolia? Talvez. O livro propriamente dito abre-se e fecha-se com
o mesmo poema, invertidas a ordem dos versos e a posição
dos artigos definidos (de fato, nada precisa-se para o melancólico).
Crueldade das crueldades: apenas o neologismo (abordo-o abaixo) permanece
intocável em seu som-sentido ensurdecedor. Um míssil nuclear
disparado contra o leitor, desinstalando-o da primeira à última
página.
A segunda parte do livro (na verdade um apêndice apropriadamente
intitulado "O P.S.") configura-se como um diálogo com o leitor baudelaireano.
O mesmo leitor a quem o poeta já se referira no poema "Ao leitor
- aquele de Baudelaire", que encerra Rarefato: "seus olhos buscando
/ brincando no meu poema // nu / poema // meu dia buscando / (no ar) /
sua leitura minha / do seu meu poema // meus olhos buscando / nos seus
// um outro poema".
Mas enquanto em Rarefato o leitor era chamado a responder "olho
no olho", o sujeito melancólico de Louco no Oco sem Beiras
possui "olhar desfocado" e, face a isto, no poema que fecha este livro,
lê-se: "entre a expressão / (banal) / e a invenção
/ (genial) // fico com a impressão // invento / no leitor / a expressão
/ do meu horror// imprima-se". A cumplicidade autoral que se buscava no
primeiro livro é substituída pela exclusão do outro
ante a determinação imperativa: "imprima-se".
Se nos três livros anteriores de Frederico Barbosa podia-se falar
de uma multiplicidade de vozes interagindo e provocando a participação
do leitor, agora o Sujeito Lírico assume a cena in totum. As intertextualidades
e intratextualidades permanecem como interfaces de um poeta culto, a entrelaçar
diferentes códigos artísticos e diversos recursos de linguagem.
Tudo, porém, confluindo para a construção eficaz de
um Sujeito Melancólico: aquele que gira ao redor de um mundo desfocado,
absorto, ensimesmado.
Todavia, não se pense que a dimensão individual exclua
a social. Louco no Oco sem Beiras – Anatomia da Depressão
é recorte raro e singular de expressão coletiva. A contemporaneidade
– mais especificamente o Brasil atual – vive um momento histórico
de desistorização. A História fragmenta-se,
rarefaz-se, dilui-se entre teorias, tecnologias e ciências. As eras
paradigmáticas chegaram ao fim. Não mais existe um
paradigma, mas um rol de paradigmas complementares, contraditórios,
semelhantes, opostos, desconexos, singulares. Enfim, o homem contemporâneo
vive a perda (para alguns parcial, para outros total) do Objeto, da Coisa,
do Ser.
A poesia de Frederico Barbosa reflete e, poeticamente, refrata, esta realidade.
A voz que fala em Louco é a de um indivíduo (e de
uma coletividade) que, paradoxalmente, protesta sem sequer saber definir
o conteúdo do seu protesto. Todavia, protesta, insatisfeito, antes
de mais nada, pela falta. A falta incomoda e move este Sujeito.
Talvez um novo momento dentro da poética de Frederico Barbosa esteja
iniciando-se aqui neste livro. Quem sabe o poeta aceite a sugestão-provocação
de Antonio Risério, no posfácio de Contracorrente:
"(...) desejaria o impossível. Que Fred dissesse: brasis, vinde
- vou inventá-los (...). Eu queria que tuas belas pedras - a sua
linguagem de porradas secas e de porretadas paradoxalmente sutis - voassem,
mais do que voam, para um futuro chamado Brasil".
A construção do Sujeito Melancólico pode ser o outro
lado do que virá: quem sabe? De minha parte, não peço
ao Frederico Barbosa utopias para este país ou para nossos tempos.
Peço a continuidade da invenção de linguagens outras,
distantes e diferenciadas substancialmente das linguagens (ditas poéticas)
instaladas - e constituídas. Aliás, com raras exceções,
linguagens assepticamente assentadas. A poesia brasileira atual precisa
muito da poesia-míssil de Frederico Barbosa - o mais significativo
poeta surgido na década passada e um dos mais expressivos dentre
os maiores poetas contemporâneos brasileiros. Isto porque Frederico
Barbosa continua a perseverante e bem sucedida trajetória de fazer
poesia do não, da recusa, do nada, da rarefação, do
rigor, do conciso, do exato. Com invenção.
Retomo a questão da melancolia: gostaria de ver no Louco
a continuidade da proposta do poeta antevista em Rarefato, 1990,
(Iluminuras) confirmada em Nada Feito Nada, 1993 (Perspectiva) e
ratificada em Contracorrente, 2000 (Iluminuras). Considero que,
sem o subtítulo, a proposta de despoesia (que o poeta faz
avançar na linha de Mallarmé, de João Cabral e Augusto
de Campos) formaria um bloco tetraédrico englobando os livros anteriores.
Mas o poeta parece satisfeito com a trindade e desloca para um outro plano
as linhas mestras das obras anteriores.
Neste ponto diviso uma mudança de trajeto de sua poética.
De fato, desde o livro anterior, Frederico Barbosa vem esboçando
uma linguagem mais permeável à oralidade. Dá continuidade
ao seu projeto de recusa do fácil, do fóssil - mas agora
sinaliza que quer ousar a linguagem nos beirais da fala e dos comportamentos
cotidianos.
Se em Rarefato a linguagem é o objeto literário em
si, radicalizando a postura de recusa, em Nada Feito Nada o projeto
amplia-se e o poeta despe as palavras, reduzindo-as ao fino fio metálico
das facas sertanejas: lâmina sobre lâmina.
Em Contracorrente a palavra alia-se, de modo contundente, à
desconstrução de posturas estético-comportamentais.
A poesia e o Sujeito espraiam juntos gritos desesperados de libertações:
poesia-porrada, poesia-sexo, poesia-sentimento, poesia-cabeça pulsam
intensas. Uma tênue linha apontava para um novo mo(vi)mento do fazer-poesia
de Frederico Barbosa.
Com Louco, a linha que se delineava furtivamente exibe um muro concretado:
ao desfalecimento de excessivos recursos poéticos, o poeta opõe
sua luta pela recusa da abundância, do desperdício, do desmando,
da redundância, do sobejo, do acumulado. Todavia, em Louco
o Sujeito Lírico busca uma Coisa (lacaniana?) que ele não
sabe nomear, pois que está totalmente submisso a ela. Um sujeito
triste, sofrido, aperreado com os afazeres cotidianos - que ressoam-lhe
como dificuldades intransponíveis. O relógio surge, logo
no primeiro poema, e reaparece num dos últimos poemas do livro,
nomeado como desespertador.
A dor que desespera. A máquina que chama para a dor desperta. A
máquina que desperta para a dor. Afinal, que dor é esta?
A da perda inominada e inominável; abissal e absoluta. Sob os olhos
embaçados deste Sujeito, o cotidiano afirmativo inexiste. A dúvida,
a incerteza, o medo, a angústia e a tristeza particularmente dolorosa
são-lhe companheiras.
Ele padece desde o primeiro poema, cujos versos terminam com o artigo definido
"o", unindo os versos em enjambement, e elando o desconforto da
existência numa seqüência rítmico-hipnótico-visual
que impele ao impactante neologismo desespertador. O poeta concentra,
nesta nova palavra, todo o incômodo que a pequena e doméstica
máquina do tempo conservava consigo mesma.
Mas cuide-se o leitor de que a revelação da característica
oculta do objeto-óbvio permanece circunscrita ao domínio
da melancolia - o objeto renomeado revela, no novo nome, a dimensão
de sua carga de tormento. O livro abre-se, e se encerra, como um mesmo
poema-soco na cara do leitor.
O segundo poema reitera a imagem incessante de fazer-e-refazer sem feito
algum. O sem-sentido pleno dos atos. O mundo em câmera lenta e desfocado,
o Sujeito "sem / luz sem voz sem vis sem vez sem mais" é um ser
que rola no rol das coisas, arrastado e arrasado por elas. Segue intransitivamente:
o verbo ir encerra o poema no presente do indicativo, sem complemento algum.
A vida não tem complementaridade nem atinge jamais a completude
- e a sintaxe gramatical corporifica este desfacelamento da voz que (des)anuncia(-se).
No terceiro poema a cama delimita o território de defesa e de preservação
do Sujeito: num movimento icônico de abrir e fechar parênteses,
intercalando os vocábulos danado, só e sonado,
o poema iconiza os movimentos, ora interceptados, ora contínuos,
da melancolia. Versos monossilábicos dão o tom monocórdico
e monolítico da fala dificultosa, da vida custosa, do tempo estirado
num curtume de sentimentos à cata de sentidos.
O livro segue como se fora um único poema escrito em
várias partes. Nada, todavia, dissuade o Sujeito de sua dor existencial,
do seu sofrimento social. Metáfora certeira destes tempos de des-utopia,
o livro de Frederico Barbosa é um basta à mesmice e uma busca
corajosa da reincorporação da oralidade, desprezando por
igual as benesses das banalidades imediatamente assimiláveis
e os pseudo-vanguardismos engagés.
Frederico Barbosa, mesmo na busca de um leitor mais familiarizado com a
coloquialidade poética, não se rende ao perfume barato
das seduções rasteiras e efêmeras do poético
dirigível-digerível. Continua o percurso cabralino do risco,
da obstrução, da atenção açuladora.
Permanece o poeta valéryano do interdito, do não dito pelo
dito. Persegue o gesto mallarmaico de arrancar do signo expressões
desconcertantes e (des)orientadoras.
Se em 1990, nas páginas do Jornal da Tarde, de São
Paulo, tive a oportunidade de chamar a atenção dos leitores
para a poesia do estreante Frederico Barbosa, hoje, onze anos depois, ratifico
palavra por palavra a avaliação feita e destaco (mesmo correndo
o risco de ser cabotino) a feliz realização do que
antevira. São palavras da época: "Frederico Barbosa em Rarefato,
não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas,
inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase
impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais
importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é,
de longe".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do
ano, feitas pelos jornais, em 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa.
Mais tarde, em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito
Nada, seu segundo livro. Em 2000, publica Contracorrente, e
é saudado tanto por um renomado crítico jovem, Antonio Risério,
como por aquele que formou-nos todos os que fazemos e nos dedicamos às
Letras neste país hoje, Antonio Candido.
No entanto, não nos iludamos: sua obra é "grão imastigável,
de quebrar dente". Valem para ela as palavras de Valéry: "A literatura
não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de
dizer o que é difícil dizer". Ou: "O verdadeiro pecado é
escrever para o público".
Frederico não escreve para o público: prefere formar público
para a sua obra. Seus quatro livros o comprovam à vera.
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