* Palavras no oco sem beiras de Frederico Barbosa
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Thiago Soares
Escritor optou por retratar a melancolia na obra
Louco no Oco Sem Beiras
Um louco está sem o domínio da razão. O oco representa
o mais pleno vazio. Algo sem beiras é algo sem limites. Louco
No Oco Sem Beiras é o novo livro do escritor recifense exilado,
como ele mesmo diz, Frederico Barbosa. Um conjunto de poemas, na verdade,
um pouco mais: um amálgama de palavras que flerta invariavelmente
com a vertente mais contemporânea da literatura, a intertextualidade.
A obra de Frederico Barbosa será lançada hoje à noite
com noite de autógrafos no Pátio de São Pedro.
Trata-se do quarto livro de Barbosa, que já ganhou o Prêmio
Jabuti com Nada Feito Nada, lançado em 1993. Sua escrita,
galgada na contenção, nas pílulas, na busca "pela
palavra mais certa", torna-se exemplar profícuo de um texto mais
universal. Não à toa, o autor foi publicado em países
como Estados Unidos, Austrália, México e Espanha. Sua universalidade
é também sedimentada por uma seleção temática
que prima por assuntos que, até certo ponto, vão de encontro
a um clichê de brasilidade.
No país do Carnaval e partindo de um autor nascido no Recife, a
terra do frevo, do maracatu, dos caboclinhos, é louvável
que Frederico Barbosa opte por captar a melancolia, a depressão,
o "outro lado da felicidade". A certa altura, ele revela: "pesadelo/sem
tato/que se pensa/e é só pó/de mico/ nesse carnaval".
Descendendo também da verve psicológica, até psicanalítica
da literatura contemporânea, o autor empresta um subtítulo
que cerca a metáfora do título de seu livro: Louco No
Oco Sem Beiras - Anatomia da Depressão.
É esta "anatomia da depressão" que faz com que a obra suplante
a mera busca pela palavra mais certa e adentre ao recinto dos livros que
emocionam. Dividido em duas parte: O Peso e O P.S., é
no primeiro conjunto de textos que se tem uma real dimensão do que
é esta anatomia da depressão. As palavras de Frederico Barbosa
transitam pela melancolia, passam pela indiferença, pela angústia,
a raiva, o desdém e culminam na constatação. Com uma
cientificidade poética, Frederico Barbosa consegue, através
de um eu-lírico extremamente pessoal, observar seu objeto, a depressão,
e, ainda que dono de extrema objetividade, executa uma obra de beleza subjetiva
latente.
Thiago Soares
é jornalista.
Resenha publicada no
jornal Folha de Pernambuco no dia 16 de janeiro de 2002.