“Louco no oco sem beiras – Anatomia da Depressão” é o quarto livro de poemas de Frederico Barbosa, pernambucano radicado em São Paulo. Aclamado pela crítica desde seus livros anteriores, o poeta confirma aqui a sua reputação e apresenta uma poesia onde a tensão psicológica ou a pressão quase limite de uma realidade cotidiana – a sua – transmuda-se poeticamente em dissecações de um dia qualquer.
A construção do livro divide-se em duas partes – “O Peso”
e “O P.S.” – onde toda a carga do título confunde-se, em suas primeiras
páginas, com a etapa inicial da vida: a infância. Manhã
e infância mesclam-se assim numa metáfora simbiótica
do tempo.
O poeta que acorda atrasado, depois de apenas “duas horas de sono”, parece
chegar ao espelho e revisitar – ou recomeçar – em palavras um roteiro
que é a sua vida hoje e que será amanhã, mas que também
é o reflexo de uma infância que se consubstancia neste acordar
atrasado, eterno, atemporal, onde o “estrangeiro” não é o
leitor, mas o autor. A vida, após a infância, será
busca ou revisitação de um tempo sempre passado e o poeta,
como o adulto, será sobrevivente desse tempo, como o náufrago
da noite diante da manhã.
Em “Louco no oco sem beiras – Anatomia da Depressão”, o subtítulo sugere ou revela o caminho de seu segredo. E assim como poderia ser dispensável, sob o contundente expressionismo do título ou da explicitação de suas belas epígrafes, também o é indispensável, como os letreiros de alerta à porta de uma área perigosa. O risco atiça a busca, aguça o pecado.
Assim como o tema e a forma de sua abordagem nos conduzem permanentemente àquela “tensão” a que nos referimos no início, a estrutura dos poemas, dos versos, a sintaxe aguda, sintética, entrecortada pelo súbito ou pela su(pressão) do óbvio, Frederico Barbosa dá à sua escrita a roupagem enxuta da melhor poesia americana do século XX, o que nos remete, aqui e ali, à dicção elegante, mordaz, exata e graciosa de um Wallace Stevens, de um William Carlos Williams. Mas influências brasileiras também podem ser observadas, e assim como uma pitada de melancolia drummondiana é notada em certos momentos, um Bandeira ou um Carlos Pena Filho também poderiam reivindicar uma ou outra luz.
Para o leitor atento, portanto, a abordagem de um dia, na vida do poeta que se revela professor angustiado diante de seus alunos, será também o balanço crítico de sua própria vida, e a manhã / infância evolui até o presente amadurecer do poema.
A segunda parte do livro, “O P.S.”, é o arremate que funciona como laço e dá ao leitor a estranha vontade de, atravessada a catarse deste dia, abrir outra vez o pacote, ou o que o autor chama de “oco” e “sem beiras”, e voltar ao princípio, nascer de novo, para reiniciar a estranha via. O poeta nos revela a tensão de seus espelhos – ocos e sem beiras – em que avistamos nossos mais profundos vazios, ou o nosso próprio louco, que nos insinua, enfim, o estranho prazer desse eterno mergulho.
Resenha publicada no
Le-Mangue - Pernambuco
em revista - Dezembro de 2001
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